[linguajar_arteorguiano].
No desenvolvimento da metodologia da
Arte Org terapia,
entre todas as questões inerentes à composição de uma nova metodologia
terapêutica; encontramos-nos diante de uma dificuldade que ultrapassa o domínio
metodológico: a saber, encontrar uma linguagem com a qual pudéssemos conversar
sobre os fenômenos, os movimentos e as sensações
presentes nos processos que estamos vivendo.
Você vai encontrar em nossos textos muitas vezes a frase:
“a
ausência (em geral) e o
funcionamento virtual (em parte) operam fora do
domínio da linguagem”. Que significa que uma grande parte das sensações e
impressões, e, portanto, grande parte dos
processos que operam diretamente na ausência e como plano de fundo do
funcionamento virtual; são de natureza difusa, sendo que para a grande maioria
ainda não temos palavras que os represente. E mais, também pode encontrar em
nossos textos postulações que dizem que este processo de traduzir os elementos
vividos difusamente para a linguagem é um problema de cada um que ultrapassa as
questões relacionadas a qualquer método ou linguagem; isto é, cada um anda
carregando um mundo de impressões e sensações (difusas) que ainda não foram
adequadamente traduzidos para a linguagem (objetiva); e mesmo as que foram
correm o risco de terem sido inadequadamente traduzidas. Além disto; o fato que
uma pessoa encontre a forma de expressar no mundo da linguagem suas impressões e
sensações difusas não alivia a carga que os “outros” andam carregando em seus
campos difusos; não alivia a pressão que a vivencia difusa exerce para encontrar
moradia nas palavras objetivas; mas sim que isto pode produzir certa sincronia
que tanto pode ser boa como muito ruim.
A outra capa desta mesma questão se dá quando precisamos
explicar a nossa experiência para as outras pessoas o que não estão vivendo o
processo que estamos vivendo (se mesmo com as que já viveram ou estão vivendo é
muito difícil, imagine quando a experiência não é comum); como é o caso de uma
pessoa falar para a outra sobre seu processo terapêutico; ou nosso caso onde
pretendemos explicar o nosso método de trabalho e os processos que ele envolve
ou que nele estão envolvidos.
Você também pode estranhar, ao perceber que ao mesmo tempo
estamos usando uma linguagem para falar sobre isto. Pois então, este é o
resultado de nosso esforço de construir uma linguagem falada para falar destes
processos e isto não nega o postulado inicial, somente nos diz que podemos sim
ir aprendendo a falar sobre estes tais processos fronteiriços e difusos.
Em primeiro lugar partimos do pressuposto que existe sim
uma experiência que é comum a todos que se dá entre a vivencia difusa e sua
tradução para o mundo das palavras objetivas; que isto se manifesta de muitas
maneiras; às vezes como insights; outras vezes na linguagem comum; e
principalmente nas linguagens criativas mais soltas de significados; ou mais
livre dos conceitos envolvidos com as palavras. Algumas vezes conseguimos ser
fieis a esta linguagem; porém na maioria das vezes ficamos presos no esforço de
tentar se comunicar e nos perdemos do que estamos falando ou do que deveríamos
falar.
Voltando para o nosso território, neste esforço (de muitas
camadas) envolvido com encontrar uma linguagem com a qual pudéssemos conversar
sobre os processos envolvidos com a terapia org; nós fomos utilizando palavras
velhas utilizadas em outros domínios; por outras correntes como é o caso da
própria palavra
ausência; também criamos palavras
novas; diversos neologismos, sendo que alguns ficaram como parte de nossa
linguagem comum e outros acabaram se diluindo ou sendo substituídos.
Isto não significa que este palavrório se constitua como
uma realidade, nem que se você conversar conosco usando estas mesmas palavras
vai ser bem compreendido. Menos ainda que você possa entender o que estamos
falando se decorar o significado que nós mesmos damos para as nossas palavras.
Isto não funciona assim.
Você pode ouvir uma de nossas conversas e pensar que
enquanto você não entende nada do que estamos falando, nós estamos entendendo
tudo, mais vou logo esclarecendo, também não é assim. Quando a conversa entra
nas
funções perceptivas de campo ou nas funções
energéticas então pode todo mundo estar conversando normalmente e por traz temos
uma torre de Babel.
Enquanto estamos navegando pelas nuvens da ausência, nem
sequer falamos a linguagem das palavras; porém quando estamos de volta (a
si-mesmos e ao mundo) andando pela superfície do planeta; ainda conseguimos
recuperar os dialetos relativamente compreensíveis; porém quando ficamos
perdidos ou atrapados (prisioneiros) no meio do caminho; é como estar numa torre
onde cada qual fala uma língua que ninguém entende, exatamente como uma versão
virtual da parábola bíblica da torre de Babel.
Não como numa torre de Babel normal (onde não existe uma
linguagem comum, mas sim diversas linguagens divididas por tribos); mas sim como
uma torre de Babel virtual onde cada um fala sua própria língua; ou mais,
diversas línguas; sendo que cada uma é inerente a um determinado
estado e sendo
que num determinado estado não conseguimos compreender o que falamos no outro.
A torre de Babel virtual.
[torre_de_babel]
A forma de linguagem que usamos
quando estamos ausentes não é a linguagem das palavras que escutamos, falamos,
lemos e escrevemos quando estamos organizados, mas sim, um primitivo dialeto
cheio de
impressões sensoriais, visuais e
auditivas, que talvez possam ser representadas por imagens pictóricas, mas que
não cabem dentro de nosso alfabeto.
Ausentar-se de si-mesmo e
voltar para si-mesmo é como, a cada vez, desaprender a falar, a ler e a
escrever, e, a cada vez, voltar a aprender a falar, a ler e a escrever.
Sendo que o reaprender a falar,
a ler e a escrever não depende do que já aprendemos ontem, mas sim, do quanto
estamos presente e da forma que estamos presentes hoje.
Entre as ondas do ausentar de
si-mesmo e voltar para si mesmo, acabamos ficando com a impressão que nossa
memória não funciona mais e que estamos perdendo a capacidade de aprender.
Numa época onde o mundo abre as
portas das comunicações globais e virtuais, aí estamos nós, contraditoriamente
metidos numa verdadeira “torre de Babel” prisioneira e solitária.
Onde o problema não se resolve
globalizando uma língua para que todos possam se comunicar através dela. Também
não se resolve melhorando o escutar, o falar, o ler, e o escrever das línguas
individuais. Não é uma questão de educar melhor, mas sim de voltar a estar
presente.
Além disto, quando conseguimos
voltar a estar relativamente presentes só conseguimos recuperar uma parte do
funcionamento “normal” onde podemos voltar a escutar, a falar, a ler e a
escrever.
Porém, o voltar a estar
presente não alcança as impressões sensoriais perceptivas e difusas que
apareceram com a
ausência e que acabam ficando
como imagens pictóricas ou como um ruído de fundo que na maior parte das vezes
não conseguimos comunicar, nem sequer com a linguagem dos desenhos e das
pinturas ou com a linguagem das escalas musicais.
Em outras palavras, uma vez que
a pessoa retoma sua presença ou volta para si, ela enfrenta um problema tão
complexo como o voltar para si-mesma e para o mundo, a saber, o de poder
expressar-se. Este mundo de
impressões difusas,
vividos quando a pessoa estava
ausente, acaba ficando dando voltas como uma
mosca bêbada sem conseguir se organizar em nenhuma forma coerente de comunicação
interna ou externa.
Mesmo quando a pessoa volta
para si-mesma e para o mundo, as impressões continuam dando voltas como soltas
ao vento; a versão virtual da torre de Babel continua crescendo, aparecem os
demais problemas relacionados com as
pressões cotidianas de viver no mundo de
hoje; e, para lidar com tudo isto, as pessoas começam a usar os mais diversos
tipos e recursos de desconexões.
A presença ou ausência das
fixações do
campo perceptivo; funcionando como
ancoras projetada na própria pessoa, nos outros, nas coisas ou nos lugares
marcam justamente a diferença polar entre um
estado
confusional com uma mente
difusa, um
estado
organizado com uma mente organizada ou um
estado
pressionado
que expressa um esforço de organização com uma mente fixada. Sendo que, a pessoa
não retorna de sua ausência todas às vezes funcionando de forma fixada e nem
todos os
estados polares apresentam conexões com
fixações arraigadas de forma
tão projetivas e tão massivas.
Nós trabalhamos com o
funcionamento virtual e a nossa linguagem oscila tal qual o
funcionamento
virtual. Ela fica mais clara e mais compreensível conforme estamos claros; e
mais empantanada, difusa e caótica conforme estamos mais desorganizados.
No
funcionamento virtual cada qual vai significando no
exato momento o que está falando e, muitas vezes, fala um montão de frases e
palavras sem “significar” nenhuma delas.